terça-feira, 12 de abril de 2011
"beleza"
Acho estranha a "beleza" de hoje em dia.
Gosto da pele cheia de coisinhas, covinhas assimétricas, marcas da complexidade humana.
O que há para se descobrir numa superfície perfeitamente lisa? Se vejo uma parte já sei como é todo o resto. Coisa chata.
Mulheres que fazem muita plástica ficam parecendo..............plástico! Há!
Maquiagem também é uma coisa traiçoeira. As vezes eu penso "hmm se eu tivesse um espanador pra ver o que tem debaixo dessa poeira toda!" Na verdade acabei de pensar nisso, e achei engraçado.
Eu acho lindo mulher quando acorda, principalmente quando a noite foi boa e o dia que nasce não contém obrigações. O rosto desperta ainda com aquele ar de sonho, os olhos ficam com preguiça de piscar e os lábios pouco se esforçam para assoprar algumas palavras.
Alguns caras não tem essa sorte. Suas amantes acordam antes deles para tirarem todo esse brilho. O cara acorda e lá esta: uma boneca inflável com pele de plástico, cabelos organizados em prateleiras, lábios cheirando a morango sintético e os olhos estalados contornados por cílios de fita isolante.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Declaração de amor de um menino do sítio
Eu sô um pardalzin......
Somo tudo passarin.....
Bóra voá mais eu?!
quarta-feira, 6 de abril de 2011
deixa
O vento levou e ela pousou nos cabelos de minha vó, que fazia tricô no jardim.
Quando fui removê-la vovó retrucou, sem olhar:
- Deixa ela ai, deixa.....
terça-feira, 5 de abril de 2011
aahh...
a beleza dos dias....
se eu fosse menos recatado choraria de alegria....
pobres são aqueles que precisam de fogos de artifício para sorrir maravilhados.
sim, sou criança, brinco aos montes numa poça de barro.
você acha isso chato?
coitado.
Tragédia
Beija-flor perdido na tourada.
Buscando um copo daquele mel oferecido
Em meio aos gritos da arena ensanguentada.
Então é isso....
Foi-se o mel,
Acabou-se a estrada.
Beija-flor sentou-se sobre o chifre do animal e de lá não mais saiu......
Golpe de espada.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
depois de todas as pesquisas
depois de todas as equações, projetos, descobertas
depois de toda a ciência, história, literatura
depois de todos os protestos, manifestos, greves, crises
depois de todos os argumentos, palavrões, debates, monografias
depois de todas as bíblias, rezas, sermões, mandamentos
depois de todo o medo, angústia, dúvida, raiva, horror
depois de tudo e, portanto, antes de tudo:
sossego.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Um dia é uma história
CAPÍTULO 1 - Começa o dia
Quarto escuro. Um pálido azul transborda pelas arestas da janela acortinada. Linguinhas geladas de vento orvalhado roçam em pés e canelas estirados sobre o colchão de palha de milho desfiada. O distante canto do galo desce a pequena colina, passa por entre as madeiras escuras do curral, bate no balde amassado do poço e junto ao vento adentra o quarto de Juvenal. É o sinal, mais um dia começa no sítio.
Juvenal não é moço nem velho. Tem peso, crenças, barba e uma unha encravada no pé esquerdo. Gosta de bucho ensopado, espingarda e viola. Seu trabalho é seu sítio. Quando tem tempo faz queijo, coalhada e licor de figo ou jabuticaba. Vende essas coisas pro Dito, o dono da venda no centro da Vila Esmeralda.
Joga os pesões pra fora da cama, carrega a cabeça nos ombros e senta com as mãos entre as pernas. O tapete de pano não está onde deveria, os pés encontram o chão de cimento queimado e Juvenal suspira .......“Pitoco............”.
Levanta. Não anda. Escorre a mão pela cara.
Agora sim, uma perna avança, depois a outra. Desliza a cortina e tudo está onde estava: O poço, o curral, a colina, o galinheiro. Juvenal grita:
- Pitoco! Acorda vagabundo!
E cospe pela janela.
Juvenal abre o armário de madeira sem trato e de dentro tira seu macacão surrado de todos os dias. Precisa de uma boa lavada.
Juvenal veste o macacão por cima do pijama inteiriço e calça seu par de botas molengas. Sai do quarto, passa pela cozinha quadrada e sai da casa, em direção ao poço. O ar está bem fresco, faz arder um pouco as narinas, e a grama molharia suas meias se ele estivesse usando alguma.
Enquanto caminha Juvenal vai tirando as melecas do rosto, sem pressa. Chega ao poço, corre a corda pelas mãos e desce, também sem pressa alguma, o balde até a água. O balde enche e Juvenal puxa. O balde pesa e a corda grita na roldana. Pitoco percebe. Esse é o sinal de um novo dia para ele, e não o canto do galo.
- Aah......tava na hora...... – resmunga Juvenal
Pitoco vem correndo, se apóia no poço e olha com a língua de fora para o dono. “Bom dia!”, ele diz com um latido, e olha pra baixo, admirando o balde subir cheio d’água.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Lembranças do Sítio
"Pó!' pra lá
"Pó?!" pra cá.
As vezes, quando não estão cutucando o chão, levantam a cabeça e ficam com o bico aberto, fazendo olhar de psicopata em surto.
E os galos então, tão sutis!
Quando querem traçar uma galinha vão que nem uma flecha gorda pra cima da coitada.
A maioria delas foge por vários metros.
Algumas tem preguiça de correr, já deitam no chão e falam "vamos acabar logo com isso vai...".
terça-feira, 22 de março de 2011
Velho Limoeiro
saiu um canto.
depois de algum balançar dos galhos
apareceu de trás de três limões enferrujados
um passarinho todo molhado.
chamava alguém que não o ouvia.
cantava e cantava ao lado de um lago esquecido,
onde os sons mergulhavam na água turva ou ricocheteavam em velhas latas de tinta.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Belezura
Os poemas já estão todos escritos em uma única estrofe universal cujas entrelinhas temos o privilégio de poder chamar de nossas vidas.
Em forma de flores e pezinhos de mulher temos ao alcance das mãos e dos olhos uma fonte de inspiração incessante, uma verdade que é sem porquês, um riso que não precisa de dentes ou lábios para rir do que não pode ser escrito ou ensinado.
Se for para resumir toda essa belezura em uma palavra, arriscaria um chavão: Deus.
Padres não deveriam existir, apenas poetas.
Mistura
Cheiro de óculos
Volúpia de alçapão.
Tesão das estrelas
Cheiro de curva
Oceano caramelizado com uma pitada de limão.
Bagaço de amor
Sabor de agulha
Uma mãe de algodão com um terço de berço nas mãos.
Manaus
O cimento e o asfalto avançam para que os "civilizados" que aqui chegam não sujem os pés no chão.
Do alto da sacada vejo homens de vermelho, azul e capacetes
Levantando torres, muros, palacetes
Quebrando pedras, martelando tábuas, corrigindo corre-mãos.
Vejo punhados de um denso verde apertados entre as construções,
eles parecem contar histórias.
Por lá já passaram onças, micos, índios e caças.
Sangue, seiva, ninhos e cantos de pássaros.
Hoje, tubulação.
Como é intenso e contraditório o prazer de estar aqui.
quarta-feira, 9 de março de 2011
cantarolando
não quero que ela fique triste.
levo flores todas as manhãs, amarradas com capim cidreira
banana amaçada com aveia e o início de uma musiquinha improvisada.
enquanto o mar for meu
lavo os pratos com prazer.
carrego os sonhos e ouço os medos só pra ela ficar descalça.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Cata-vento
- Rubem Alves -
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
mãe
Não cheguei a conhecê-la direito.
Quando ela transformou-se em estrela minha cabeça era nova demais,
egoísta demais,
e não enchergava nada além da ponta do meu nariz.
Conhecia a mãe que ela era,
mas fiquei longe de saber que pessoa estava por trás disso tudo.
Gostaria de ter conversado sobre seus medos, angústias e ilusões.
Sobre seus desejos profundos,
seus erros mais escabrosos.
Se ela ainda estivesse neste plano eu aprenderia a mecher com a terra e com as sementes
para construir-mos juntos um jardim muito bonito.
Sentaríamos sob a sombra de uma caramboleira e trocaríamos idéias sobre nós e o mundo,
de receitas de doces aos giros da Terra,
passando por Maria Bethânia e cigarros.
O amor que sinto por ela e o amor dela por mim existirá para todo o sempre,
desrespeitando com graça os limites impostos pela existência dos corpos.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
estar
E esse remo nas minhas mãos, pra onde rema?
Que vento é esse que estufa a vela?
Qual mar é esse cuja água nunca é, foi?
Acho que tudo isso é o que menos importa.
Sei que estou nesse barco,
e que a vista para o horizonte é muito bonita.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
meu vô
Suas rugas escuras,
seus dedos de tijolo,
sua careca lisinha e seus resistentes cabelos negros.
É tão verdadeiro,
tão sereno,
é lindo quando ele fecha a geladeira com um empurrão de bengala.
Ele adora trocar lâmpadas, mecher com fios, cuidar da horta, cozinhar pra gente, pros cachorros, prás galinhas e prás vacas.
Quando nasce uma ninhada de pintinhos é uma delícia. Ele até descreve características particulares de cada um:
Um é mais gordinho,
o outro é tímido,
tem um que é muito guloso!
Outro dia eu tava na mesa da cozinha da nossa casa lá no sítio. Meu vô tava na pia, de frente pra janela.
Comecei a ouvir ele contar baixinho:
- 1....2....3....4....
- 1.....2........3..4........5......
Reparei no que ele estava fazendo e vi que olhava atentamente pela janela. Perguntei:
- Que foi vô?
Ele respondeu:
- Filho da puta......algum gavião deve ter comido um pintinho da ninhada novinha......
E continuou a fazer o que fazia.
Nunca vou me esquecer dele contando, bem baixinho:
- 1......2..........3.........4........
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
um dia de chuva
o ônibus demorou, mas chegou.
dentro dele as pessoas que entraram não tardaram a fechar as janelas,
acho que por medo de serem corroídos pela água ou algo assim.
em pouco tempo o que havia para se respirar era a respiração das outras pessoas,
um ar quente cheio de coisas.
do mundo de fora pouco se via,
a chuva caia , embaçava o parabrisa, os vidros dos lados e os vidros de trás.
passávamos pelo santa felícia,
um bairro onde ainda se joga bola na rua e pipas ainda fazem orquestra acirrada no céu.
mas naquele dia não.
naquele dia chovia e os pássaros da periferia estavam em suas casas.
passando por um descampado gramado, do lado de um parquinho mambembe, avistei algo
através do vidro embaçado.
não acreditei.
surreal.
levantei-me depressa e puxei a cordinha para descer do busão.
aparentemente as outras pessoas não viram o que eu vi.
o ônibus foi embora e eu fiquei na calçada, já ensopado após alguns segundos.
meus olhos eram alvejados pelas gotas da chuva, tive que me esforçar para ver direito.
do outro lado do descampado, perto do parquinho e de um açougue fechado,
estava uma enorme massa amarelada, caminhando e farejando a terra e a grama.
seus passos eram lentos e firmes, sua respiração gerava uma fumaça espessa, sua juba molhada
pesava sobre os ombros.
dou um passo, piso numa folha e suas orelhas e fuça não falham em detectar minha presença
rapidamente.
seu pescoço encaixa-se sobre a coluna, sua cabeçorra vira em minha direção e seus olhos fisgam
os meus como quem pergunta "Quem vem lá?"
Congelei, minhas roupas ficaram duras, meu pé entrou no chão.
Era tão lindo e assustador.
O enorme animal começou a andar em minha direção e após alguns passos começou uma corrida de caça.
Cobriu vários metros numa velocidade absurda e, quando percebi, já estava bem perto de mim.
Pensei: "É isso, um ataque de um leão!".
O bicho veio pra cima de mim e me jogou no chão com um empurrão tonelada.
Seus dentes ficaram a poucos centímetros do meu rosto,
seu bafo esquentava meu nariz.
Fechei os olhos, paralisado, petrificado.
Após alguns instantes, eu ainda ouvia o barulho da chuva.
Pela pressão sobre meu peito sabia que ele ainda estava lá.
Abri os olhos lentamente e lá estava ele, olhando fixamente nos meus olhos.
Quem é você? - ele me perguntou.
Sou Raoni, filho de Francisco e Maria Cecília. - respondi
Silêncio
E você, quem é? - perguntei
O enorme leão, acreditem, desfranziu as sobrancelhas e deu um belo sorriso.
Quem sou eu? - retrocou
Nesse momento ele saiu de cima do meu corpo e ficou olhando para a chuva, sentado, contemplativo.
Virou-se para mim e disse:
"Meu filho, eu sou a Poesia.
Fico muito feliz de ter sido notado por você.
Normalmente perambulo pelas ruas e a maioria das pessoas não me vê.
Fico vagando, perdido, cheirando os restos de grama.
Continue com seu coração esperto, pois existem outras entidades caminhando por ai.
Algumas delas fazem muito mal às pessoas e mesmo assim são notadas e lembradas a todo instante.
Eu não entendo.
Mas, no momento, estou feliz de ter me encontrado com você.
Posso continuar minha viagem em paz"
O leão se levantou, deu mais um sorriso, e começou a caminhar por entre a chuva.
Depois de alguns passos, desapareceu.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Mensagem da Virada
Segue abaixo um trecho de uma das últimas páginas do livro. Eu tava pensando sobre a virada de mais um ano que se aproxima e, por algum motivo, abri o livro no final, mesmo estando apenas no começo. Recebi, de presente do "acaso", essa linda mensagem que fala tudo. Passo ela para vocês, como presente e energia de Ano Novo.
"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias. Gautama Buda, fundador do Budismo, disse certa vez:
"Nossa existência é transitória como as nuvens de outono. Observar o nascimento e a morte do ser é como olhar os movimentos de uma dança.
Uma vida é como o brilho de um relâmpago no céu,
Levada pela torrente montanha abaixo."
Nós paramos um instante para encontrar o outro, para nos conhecermos, para amar e compartilhar. É um momento precioso, mas transitório. Trata-se de um pequeno parêntese na eternidade. Se partilhamos carinho, sinceridade, amor, criamos abundância e alegria para todos nós. Esse momento de amor é valioso."