sexta-feira, 13 de maio de 2011

sem as palavras

Quando meu pai chega do trabalho

com os olhos dobrados pelo cansaço

abro os braços e aperto-o por alguns instantes.

As vezes pergunto como foi o dia e se está tudo bem,

mas não precisaria.

Nenhuma pergunta e nenhuma resposta

poderiam dizer o que dizem seus olhos cansados

e o meu abraço de filho.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

uma mensagem bonita

deixem carregar até o fim, depois assistam.

www.vimeo.com/21833399?ab

terça-feira, 26 de abril de 2011

ray charles e meu pai

ray charles

é fera.

fera que chora em teclas

sorri em gritos

pede perdão a georgia com um sopro ao final da estrofe.

em alguns momentos do seu show ele não se aguenta

se abraça e faz carinhos no próprio rosto.

as letras transbordam

ele sabe o que fala

ele é o que canta

o piano é seu jardim.



olho para o lado e o que vejo não é uma multidão

não estou num show, estou numa sala.

o dvd que rola na tela é o do ray.

assisto junto ao meu pai.


olho para o lado e o que vejo não é uma multidão.

vejo meu pai....

óculos tortos....

olhos vermelhos....

brotando lágrimas.....


viu?

meu coração não é o que é por acaso.

domingo, 24 de abril de 2011

A gota de mel no azedo do limão

e então


eu soube


o silêncio.


tava tudo lá....


sendo.....


vibrando....


porque é isso que acontece


existir é o grande lance.....


e compartilhar essa fagulha


vê-la refletida em olhos que nos olham


é o gesto mais bonito que se pode conceber


é a resposta que pensamento algum pode elaborar


é a gota de mel no azedo do limão


é Amar.

domingo, 17 de abril de 2011

aprendizado

Em algum lugar do passado

comecei a ver

apesar de já enchergar muito tempo antes disso.

Em algum lugar do passado

pude perceber o valor da minha vida

a riqueza dos nossos dias

o milagre que é viver.

Em algum lugar do passado

foi-me apresentada a dor

como o melhor aviso de que os momentos calmos e os instantes de riso

são, sem mais nem menos, o tão falado paraíso.

Em algum lugar do passado

aprendi isso tudo.

Portanto, não posso esquecer do que já me foi ensinado.

Às vezes é difícil lembrar, eu sei, é preciso muito força.

Por isso penso poesia......

Ser poeta, para mim, é não esquecer

para continuar aprendendo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

fazer ver

Às vezes, muitas vezes, não nos cabe revelar algo para o outro. Fazer enchergar, fazer cair a ficha, introduzir uma perspectiva num olhar é algo muito complexo. Se tentamos fazer descer goela abaixo uma "conclusão" o processo pode ser extremamente desgastante e, muitas vezes, ineficaz.
Tentar ser o portador da Chave para uma Porta é subestimar a complexidade do outro, é subestimar o caminho que nós mesmos percorremos para chegar onde estamos e pensar o que pensamos. Não somos portadores de chaves, somos peças ativas no processo de descoberta pessoal de cada indivíduo com o qual nos relacionamos.

Às vezes, muitas vezes, o melhor que podemos fazer é estar ao lado, conversar sem propósito, passear por ai.

terça-feira, 12 de abril de 2011

"beleza"

Acho estranhas essas mulheres de plástico.
Acho estranha a "beleza" de hoje em dia.
Gosto da pele cheia de coisinhas, covinhas assimétricas, marcas da complexidade humana.
O que há para se descobrir numa superfície perfeitamente lisa? Se vejo uma parte já sei como é todo o resto. Coisa chata.
Mulheres que fazem muita plástica ficam parecendo..............plástico! Há!
Maquiagem também é uma coisa traiçoeira. As vezes eu penso "hmm se eu tivesse um espanador pra ver o que tem debaixo dessa poeira toda!" Na verdade acabei de pensar nisso, e achei engraçado.
Eu acho lindo mulher quando acorda, principalmente quando a noite foi boa e o dia que nasce não contém obrigações. O rosto desperta ainda com aquele ar de sonho, os olhos ficam com preguiça de piscar e os lábios pouco se esforçam para assoprar algumas palavras.
Alguns caras não tem essa sorte. Suas amantes acordam antes deles para tirarem todo esse brilho. O cara acorda e lá esta: uma boneca inflável com pele de plástico, cabelos organizados em prateleiras, lábios cheirando a morango sintético e os olhos estalados contornados por cílios de fita isolante.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Declaração de amor de um menino do sítio

Ocê é uma pardalzinha......

Eu sô um pardalzin......

Somo tudo passarin.....


Bóra voá mais eu?!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

deixa

Folha seca voou de um galho vazio.

O vento levou e ela pousou nos cabelos de minha vó, que fazia tricô no jardim.

Quando fui removê-la vovó retrucou, sem olhar:

- Deixa ela ai, deixa.....

terça-feira, 5 de abril de 2011

aahh...

aahh....

a beleza dos dias....

se eu fosse menos recatado choraria de alegria....

pobres são aqueles que precisam de fogos de artifício para sorrir maravilhados.

sim, sou criança, brinco aos montes numa poça de barro.

você acha isso chato?

coitado.

Tragédia

Então lá estava.....

Beija-flor perdido na tourada.

Buscando um copo daquele mel oferecido

Em meio aos gritos da arena ensanguentada.

Então é isso....

Foi-se o mel,

Acabou-se a estrada.

Beija-flor sentou-se sobre o chifre do animal e de lá não mais saiu......

Golpe de espada.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

depois de todas as pesquisas

depois de todas as equações, projetos, descobertas

depois de toda a ciência, história, literatura

depois de todos os protestos, manifestos, greves, crises

depois de todos os argumentos, palavrões, debates, monografias

depois de todas as bíblias, rezas, sermões, mandamentos

depois de todo o medo, angústia, dúvida, raiva, horror

depois de tudo e, portanto, antes de tudo:

sossego.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Um dia é uma história

CAPÍTULO 1 - Começa o dia

Quarto escuro. Um pálido azul transborda pelas arestas da janela acortinada. Linguinhas geladas de vento orvalhado roçam em pés e canelas estirados sobre o colchão de palha de milho desfiada. O distante canto do galo desce a pequena colina, passa por entre as madeiras escuras do curral, bate no balde amassado do poço e junto ao vento adentra o quarto de Juvenal. É o sinal, mais um dia começa no sítio.

Juvenal não é moço nem velho. Tem peso, crenças, barba e uma unha encravada no pé esquerdo. Gosta de bucho ensopado, espingarda e viola. Seu trabalho é seu sítio. Quando tem tempo faz queijo, coalhada e licor de figo ou jabuticaba. Vende essas coisas pro Dito, o dono da venda no centro da Vila Esmeralda.

Joga os pesões pra fora da cama, carrega a cabeça nos ombros e senta com as mãos entre as pernas. O tapete de pano não está onde deveria, os pés encontram o chão de cimento queimado e Juvenal suspira .......“Pitoco............”.

Levanta. Não anda. Escorre a mão pela cara.

Agora sim, uma perna avança, depois a outra. Desliza a cortina e tudo está onde estava: O poço, o curral, a colina, o galinheiro. Juvenal grita:

- Pitoco! Acorda vagabundo!

E cospe pela janela.

Juvenal abre o armário de madeira sem trato e de dentro tira seu macacão surrado de todos os dias. Precisa de uma boa lavada.

Juvenal veste o macacão por cima do pijama inteiriço e calça seu par de botas molengas. Sai do quarto, passa pela cozinha quadrada e sai da casa, em direção ao poço. O ar está bem fresco, faz arder um pouco as narinas, e a grama molharia suas meias se ele estivesse usando alguma.

Enquanto caminha Juvenal vai tirando as melecas do rosto, sem pressa. Chega ao poço, corre a corda pelas mãos e desce, também sem pressa alguma, o balde até a água. O balde enche e Juvenal puxa. O balde pesa e a corda grita na roldana. Pitoco percebe. Esse é o sinal de um novo dia para ele, e não o canto do galo.

- Aah......tava na hora...... – resmunga Juvenal

Pitoco vem correndo, se apóia no poço e olha com a língua de fora para o dono. “Bom dia!”, ele diz com um latido, e olha pra baixo, admirando o balde subir cheio d’água.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Lembranças do Sítio

Ah, as galinhas!

"Pó!' pra lá

"Pó?!" pra cá.

As vezes, quando não estão cutucando o chão, levantam a cabeça e ficam com o bico aberto, fazendo olhar de psicopata em surto.

E os galos então, tão sutis!

Quando querem traçar uma galinha vão que nem uma flecha gorda pra cima da coitada.

A maioria delas foge por vários metros.

Algumas tem preguiça de correr, já deitam no chão e falam "vamos acabar logo com isso vai...".

terça-feira, 22 de março de 2011

Velho Limoeiro

Do alto dum velho limoeiro sem folhas

saiu um canto.

depois de algum balançar dos galhos

apareceu de trás de três limões enferrujados

um passarinho todo molhado.

chamava alguém que não o ouvia.

cantava e cantava ao lado de um lago esquecido,

onde os sons mergulhavam na água turva ou ricocheteavam em velhas latas de tinta.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Belezura

Conservo minha loucura e minha tristeza como pérolas de uma concha chamada poesia.

Os poemas já estão todos escritos em uma única estrofe universal cujas entrelinhas temos o privilégio de poder chamar de nossas vidas.

Em forma de flores e pezinhos de mulher temos ao alcance das mãos e dos olhos uma fonte de inspiração incessante, uma verdade que é sem porquês, um riso que não precisa de dentes ou lábios para rir do que não pode ser escrito ou ensinado.

Se for para resumir toda essa belezura em uma palavra, arriscaria um chavão: Deus.

Padres não deveriam existir, apenas poetas.

Mistura

Relógio de goiaba

Cheiro de óculos

Volúpia de alçapão.


Tesão das estrelas

Cheiro de curva

Oceano caramelizado com uma pitada de limão.


Bagaço de amor

Sabor de agulha

Uma mãe de algodão com um terço de berço nas mãos.

Manaus

No meio da floresta cresce uma clareira.

O cimento e o asfalto avançam para que os "civilizados" que aqui chegam não sujem os pés no chão.

Do alto da sacada vejo homens de vermelho, azul e capacetes

Levantando torres, muros, palacetes

Quebrando pedras, martelando tábuas, corrigindo corre-mãos.

Vejo punhados de um denso verde apertados entre as construções,

eles parecem contar histórias.

Por lá já passaram onças, micos, índios e caças.

Sangue, seiva, ninhos e cantos de pássaros.

Hoje, tubulação.

Como é intenso e contraditório o prazer de estar aqui.

quarta-feira, 9 de março de 2011

cantarolando

enquanto o mar for meu

não quero que ela fique triste.

levo flores todas as manhãs, amarradas com capim cidreira

banana amaçada com aveia e o início de uma musiquinha improvisada.



enquanto o mar for meu

lavo os pratos com prazer.

carrego os sonhos e ouço os medos só pra ela ficar descalça.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cata-vento

Ele visitava semanalmente o túmulo do pai e levava flores novas. Ficava triste vendo as flores murchas e secas da semana anterior, que ninguém regara. Aí teve a idéia de substituir as flores por um cata-vento. Fincado o cata-vento, sempre que o vento soprava, ele girava...

- Rubem Alves -