quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

estar

Ah mas que barco é esse?

E esse remo nas minhas mãos, pra onde rema?

Que vento é esse que estufa a vela?

Qual mar é esse cuja água nunca é, foi?



Acho que tudo isso é o que menos importa.

Sei que estou nesse barco,

e que a vista para o horizonte é muito bonita.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

acerolas

Olha que beleza! Catei 237 acerolas hoje!

- Seu Milton, meu vô -

meu vô

Não consigo pensar em algo mais belo que meu vô.

Suas rugas escuras,

seus dedos de tijolo,

sua careca lisinha e seus resistentes cabelos negros.


É tão verdadeiro,

tão sereno,

é lindo quando ele fecha a geladeira com um empurrão de bengala.

Ele adora trocar lâmpadas, mecher com fios, cuidar da horta, cozinhar pra gente, pros cachorros, prás galinhas e prás vacas.


Quando nasce uma ninhada de pintinhos é uma delícia. Ele até descreve características particulares de cada um:

Um é mais gordinho,

o outro é tímido,

tem um que é muito guloso!


Outro dia eu tava na mesa da cozinha da nossa casa lá no sítio. Meu vô tava na pia, de frente pra janela.

Comecei a ouvir ele contar baixinho:

- 1....2....3....4....

- 1.....2........3..4........5......

Reparei no que ele estava fazendo e vi que olhava atentamente pela janela. Perguntei:

- Que foi vô?

Ele respondeu:

- Filho da puta......algum gavião deve ter comido um pintinho da ninhada novinha......

E continuou a fazer o que fazia.



Nunca vou me esquecer dele contando, bem baixinho:

- 1......2..........3.........4........

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

um dia de chuva

eu tava voltando do trabalho. chovia.

o ônibus demorou, mas chegou.

dentro dele as pessoas que entraram não tardaram a fechar as janelas,

acho que por medo de serem corroídos pela água ou algo assim.

em pouco tempo o que havia para se respirar era a respiração das outras pessoas,

um ar quente cheio de coisas.

do mundo de fora pouco se via,

a chuva caia , embaçava o parabrisa, os vidros dos lados e os vidros de trás.

passávamos pelo santa felícia,

um bairro onde ainda se joga bola na rua e pipas ainda fazem orquestra acirrada no céu.

mas naquele dia não.

naquele dia chovia e os pássaros da periferia estavam em suas casas.

passando por um descampado gramado, do lado de um parquinho mambembe, avistei algo

através do vidro embaçado.

não acreditei.

surreal.

levantei-me depressa e puxei a cordinha para descer do busão.

aparentemente as outras pessoas não viram o que eu vi.

o ônibus foi embora e eu fiquei na calçada, já ensopado após alguns segundos.

meus olhos eram alvejados pelas gotas da chuva, tive que me esforçar para ver direito.

do outro lado do descampado, perto do parquinho e de um açougue fechado,

estava uma enorme massa amarelada, caminhando e farejando a terra e a grama.

seus passos eram lentos e firmes, sua respiração gerava uma fumaça espessa, sua juba molhada

pesava sobre os ombros.

dou um passo, piso numa folha e suas orelhas e fuça não falham em detectar minha presença

rapidamente.

seu pescoço encaixa-se sobre a coluna, sua cabeçorra vira em minha direção e seus olhos fisgam

os meus como quem pergunta "Quem vem lá?"

Congelei, minhas roupas ficaram duras, meu pé entrou no chão.

Era tão lindo e assustador.

O enorme animal começou a andar em minha direção e após alguns passos começou uma corrida de caça.

Cobriu vários metros numa velocidade absurda e, quando percebi, já estava bem perto de mim.

Pensei: "É isso, um ataque de um leão!".

O bicho veio pra cima de mim e me jogou no chão com um empurrão tonelada.

Seus dentes ficaram a poucos centímetros do meu rosto,

seu bafo esquentava meu nariz.

Fechei os olhos, paralisado, petrificado.



Após alguns instantes, eu ainda ouvia o barulho da chuva.

Pela pressão sobre meu peito sabia que ele ainda estava lá.

Abri os olhos lentamente e lá estava ele, olhando fixamente nos meus olhos.

Quem é você? - ele me perguntou.

Sou Raoni, filho de Francisco e Maria Cecília. - respondi

Silêncio



E você, quem é? - perguntei

O enorme leão, acreditem, desfranziu as sobrancelhas e deu um belo sorriso.

Quem sou eu? - retrocou

Nesse momento ele saiu de cima do meu corpo e ficou olhando para a chuva, sentado, contemplativo.

Virou-se para mim e disse:

"Meu filho, eu sou a Poesia.

Fico muito feliz de ter sido notado por você.

Normalmente perambulo pelas ruas e a maioria das pessoas não me vê.

Fico vagando, perdido, cheirando os restos de grama.

Continue com seu coração esperto, pois existem outras entidades caminhando por ai.

Algumas delas fazem muito mal às pessoas e mesmo assim são notadas e lembradas a todo instante.

Eu não entendo.

Mas, no momento, estou feliz de ter me encontrado com você.

Posso continuar minha viagem em paz"


O leão se levantou, deu mais um sorriso, e começou a caminhar por entre a chuva.

Depois de alguns passos, desapareceu.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Mensagem da Virada

comecei a ler um livro do Deepak Chopra. Na minha cabeça o cara era tipo um pop-star do bem-estar, e realmente é. Um pop-star do bem-estar. Antes eu via isso de forma negativa, carga da grande quantidade de merda disseminada sob a alcunha do pop, popular, do "na moda". Mas, após algumas páginas lidas, vi que não era uma coisa ruim. O cara realmente encherga, e descreve o que vê de forma bela e sincera, sem sinais da podridão moderna. Assim, fiquei feliz que um material desse tenha conseguido o status de pop.
Segue abaixo um trecho de uma das últimas páginas do livro. Eu tava pensando sobre a virada de mais um ano que se aproxima e, por algum motivo, abri o livro no final, mesmo estando apenas no começo. Recebi, de presente do "acaso", essa linda mensagem que fala tudo. Passo ela para vocês, como presente e energia de Ano Novo.



"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias. Gautama Buda, fundador do Budismo, disse certa vez:

"Nossa existência é transitória como as nuvens de outono. Observar o nascimento e a morte do ser é como olhar os movimentos de uma dança.
Uma vida é como o brilho de um relâmpago no céu,
Levada pela torrente montanha abaixo."

Nós paramos um instante para encontrar o outro, para nos conhecermos, para amar e compartilhar. É um momento precioso, mas transitório. Trata-se de um pequeno parêntese na eternidade. Se partilhamos carinho, sinceridade, amor, criamos abundância e alegria para todos nós. Esse momento de amor é valioso."

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

se você é jovem ainda

pensando na vida, pra variar, lembrei de uma pérola, um clássico da filosofia popular. essa música faz bem mais sentido hoje do que quando eu era moleque.


Se você é jovem ainda (Chaves e a galera da Vila)

Se você é jovem ainda, jovem ainda, jovem ainda,
Amanhã velho será, velho será, velho será!
A menos que o coração, que o coração sustente
A juventude, que nunca morrerá!

Existem jovens de oitenta e tantos anos,
E também velhos de apenas vinte e seis.
Porque velhice não significa nada,
E a juventude volta sempre outra vez!

Se você é jovem ainda, jovem ainda, jovem ainda,
Amanhã velho será, velho será, velho será!
A menos que o coração, que o coração sustente
A juventude, que nunca morrerá!

E você é tão jovem quanto sente
Pode apostar: é jovem pra valer
E velho é quem perde a pureza
E também é quem deixa de aprender!

Não diga não à vida que te espera,
Pra festejar a alegria de viver,
Pra agradecer a luz do seu caminho,
E você vai com isso entender!

Se você é jovem ainda, jovem ainda, jovem ainda,
Amanhã velho será, velho será, velho será!
A menos que o coração, que o coração sustente
A juventude, que nunca morrerá!

Nhonho: "Olha, olha turma! O Dr. Chapatin!
É o velho mais jovem que eu conheço!"

Dr. Chapatin: "Eu não sou velho, viu!
Sou uma pessoa vivida!"

Nhonho: "É, Dr. Chapatin,
Quantos anos o senhor tem, hein?"

Dr. Chapatin: "Eu? Todos!
Mas isso não te interessa, ouviu!
Jovem ainda!"

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

pensando durante o intervalo de almoço

não quero convencer ninguém de nada.

gostaria que percebessem, sentissem.

convencer tem a ver com argumento

e confesso não ter muitos.

o que tenho são sentimentos que me dão certezas.

meu empenho é escrever sentimentos, sensação, um suspiro.

é complicado!

quando me deparo com alguém que sente mais amor por uma equação balanceada do que por um ninho de pássaros repleto de ovinhos.....

bom, então vejo o quão longa e tortuosa é essa estrada.

bora nessa!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

não perca as crianças de vista - o rappa

Pra enxergar o infinito
Debaixo dos meus pés
Não basta olhar de cima
E buscar no escuro, no obscuro
A sombra que me segue todo dia

Deixo quieto e seguro as páginas dos sonhos que não li
E outra vez não me impeço de dormir

Os jornais não informam mais
E as imagens nunca são tão claras
Como a vida

Vou aliviar a dor e não perder
As crianças de vista

Família, um sonho ter uma família
Família, um sonho de todo dia

Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia

Família

haikai #1

your skin....


full of imperfections....


i'm in heaven....


right now.

contra situação geral das coisas #6

um tom grosso, de grosseria.

a voz carregada de violência.

esse é um dos efeitos colaterais de se trabalhar,

de ser escravo de alguém por alguns "reais".

tenho atendido telefonemas de clientes e fornecedores

e posso dizer que essas pessoas esqueceram de como é ser poesia.

dirigem suas palavras como quem aponta uma carabina para um alvo,

o dedo coça, ansioso em apertar o gatilho ao mínimo sinal de movimento suspeito.


o desafio do trabalho moderno não ensina,

não sensibiliza,

não enriquece o espírito como os verdadeiros perrengues da Vida.

na Vida o grande martelo vem,

pressiona o ser contra a bigorna,

estilhaça a nossa unidade e espalha por diferentes cantos nossos pedaços em lascas.

cada pedaço, agora cada um em um lugar, observa o ambiente sob uma nova perspectiva.

o grande martelo, depois do estrago, transforma-se em vassoura, e começa a reagrupar nossos fragmentos.

o fragmento que antes estava por cima agora fica em baixo, aquele que ficava no centro agora esta mais pela periferia.

o fragmento que achava que não, depois de enchergar diferente enquanto estava separado do todo, agora acha que sim, ou talvez, ou pelo menos "por que não?".

o ser, depois do perrengue, é outro.

sofreu, quebrou, ficou em pedaços.

resistiu à força do vento, algumas lascas menores foram carregadas para longe, tinham que ser levadas para longe.

o ser, agora reformado, é rico.

muito mais rico do que era antes.

riqueza de verdade.

esse é o martelo da vida.

o que faz o martelo do trabalho?

ele bate, bate, bate, bate, sem descanso.

o ser, sendo pressionado ininterruptamente, não quebra.

não quebra por medo de quebrar, seria um absurdo!

ao invés disso o ser vai endurecendo, endurecendo......

suas partes foram tão subjulgadas que se espremem uma entre as outras, formando uma casca

dura e sem sentimentos, pronta para aguentar marteladas.

o ser, que agora já posso chamar de pedra, fica duro, seco.

o que vocês recebem por se transformarem numa pedra super resistente?

o que lhe foi ensinado depois de tudo isso, que riqueza real foi recebida?

nenhuma.

recebeu apenas algumas tiras de papel colorido, com desenhos e números em cima,

que você vai utilizar para manter forte e vigoroso o mesmo martelo que te fez pedra,

para que ele faça o mesmo com seus amados e vizinhos.






o ser vai diminuindo.......diminuindo........

e desaparece, sem deixar vestígios.

sábado, 11 de dezembro de 2010

citando sábios #2

esse é do próprio Rubem Alves, um mestre de sutilezas:

"Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito.... A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados a solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato.... O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido.... Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório".

citando sábios #1

segue abaixo trecho de Gaston Bachelard, citado por Rubem Alves no livro "Ostra feliz não faz pérola". Obrigado Rubem, por mais esse pedaço de belo bom-senso.


"Ergo suavemente um galho; um pássaro está ali chocando os ovos. Não levanta voo. Somente estremece um pouco. Tremo por fazê-lo tremer. Tenho medo que o pássaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiança dos pássaros. Fico imóvel. Lentamente se acalma - imagino eu! - o medo do pássaro e o meu medo de causar medo. Respiro melhor. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanhã. Hoje, trago comigo uma alegria: os pássaros fizeram um ninho no meu jardim".

domingo, 5 de dezembro de 2010

força forte

de qual força eu preciso mais?

meu pai tocando o violão,

a água caindo em peso do alto e por entre uma cachoeira.

não há força que seja forte senão sensível.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

eu paro e penso #3

um garotinho desenha ao meu lado.

é uma casa - ele diz.

é a casa de quem? - pergunto

é uma mansão, todo mundo pode morar nela.

Conclusões

as maiores coisas

as conclusões alimento

as respostas verdadeiramente poderosas

não cabem em verbos.

não podem ser expostas como quem aponta o dedo para um caminho

estruturadas em raciocínio parede.


as maiores respostas são verdades da alma

são sinceridades nuas, cruas, lindas.

as grandes conclusões são sentimentos, sensação.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

vida safada

vida safada.

diz-me que sei,

que já passou a tormenta,

mas lá vem outra onda que rebenta.



talvez eu passe os dias todos na maré alta

ensopado por viver

inevitavelmente em movimento

nadando por correntes duvidosas

pouco familiares.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

mais um pedaço

Sobre os muros,
poças d´água.
Infiltrações esverdiadas dão o tom à chuva magra.

Mamangavas sibilam pretas dentro dos encanamentos roucos das árvores sem seiva.

sábado, 13 de novembro de 2010

uns pedaços

"mas na areia caminha com uma instabilidade deliciosa, de chinélo"


"o abajur é fraco, mais amarelado que o jornal do dia 4."


"frágil uva sem casca. largada na rua dom pedro segundo, no meio da calçada."


"era noite, quase ano novo, e algumas gotas ainda escorriam por entre as rugas murchas dos coqueiros enfileirados na calçada.
dentro duma varanda cheia de amarelo e maresia dizia-se pouco ou quase nada sobre as vermelhas coxas da vizinha entediada.
o som das palavras eram rabiscos no papel pautado, eram vozes em bolhas de cerveja estourando ao serem cravejadas pelo sal do vento"

terça-feira, 9 de novembro de 2010

contra a situação geral das coisas #5

todos os dias nascem deuses.....

todos os dias nascem deuses.....

todos os dias nascem deuses!

a frase é de uma música do nação zumbi e eu boto fé:

somos deuses

divinos

grãos dum mar olimpo.

somos reinos

cristos

pólen de uma flor gigante em riso.


de que deus é esse que falam os padres, pastores e bispos?

porque tanta linguagem, ouro e máscaras?

qual Céu é esse, tão distante, que é chamado de céu?

Porque não Terra? Solo? Olho? Paz?





É nefasto o fato de que podar pessoas tenha se transformado no negócio mais bem sucedido da humanidade.